A IA não substitui pessoas, ela empodera aquelas que a dominam.
Qual a relação que temos entre envelhecer e a Inteligência Artificial?
A resposta para esta pergunta vai ajudar você, leitor, a entender que existe uma linha clara que separa o que é uma máquina, um algoritmo, do que é um ser humano. Vou tentar trazer um pouco de lucidez a esta loucura que está acontecendo com a mente das pessoas ultimamente.
Somos uma existência extremamente complexa:
Segundo o Professor Rubens Castilho, em seu artigo “Fases da vida humana: as 4 etapas e suas divisões“, a vida tem quatro fases: infância, adolescência, idade adulta e velhice. Elas ocorrem dentro do ciclo da vida, que possui dois grandes eventos: o nascimento e a morte. Estas quatro etapas apresentam mudanças físicas em cada idade, distinguindo a etapa em que cada indivíduo se encontra. Além das mudanças físicas, cada fase da nossa existência traz uma transformação na nossa psique, ativada pelos acontecimentos do meio em que vivemos, pelas mudanças hormonais e demais condições físicas que são características únicas de cada pessoa. Isso, por si só, é impressionante — demonstra como somos complexos, com infinitas combinações muitas vezes inexplicáveis, com ciclos que se repetem entre pessoas diferentes, mas que ao mesmo tempo são únicos, porque dependem da era e do meio ambiente em que cada um vive. Sem entrar em questões científicas mais abrangentes, quis apenas fazê-lo perceber como cada pessoa é complexa e como tantos fatores que não controlamos afetam um indivíduo, e, consequentemente, quem está ao seu redor e, no final, toda a nossa sociedade.
O aprendizado e o saber definem como vivemos:
A afirmação de que somos resultado do que aprendemos não está errada. O aprendizado afeta tudo aquilo que um indivíduo se torna e faz ao longo da vida, e isso certamente impacta a todos. Se multiplicarmos isso por cada pessoa na Terra, temos o retrato do caos da nossa sociedade. A Unesco sabe disso, e em 2024 o Instituto Ayrton Senna publicou um artigo sobre os 4 pilares da educação que, segundo eles, nos garantem um aprendizado contínuo ao longo da vida, contribuindo para a melhoria das questões sociais e para um futuro mais sustentável. São eles:
- Aprender a conhecer: Este pilar refere-se ao prazer de aprender e ao desenvolvimento de competências cognitivas que permitem ao indivíduo compreender o mundo ao seu redor.
- Aprender a fazer: O segundo pilar está relacionado ao desenvolvimento de habilidades práticas e à aplicação do conhecimento.
- Aprender a conviver: Neste pilar, a ênfase está no desenvolvimento de habilidades socioemocionais que permitam ao indivíduo viver em harmonia com os outros.
- Aprender a ser: O último pilar engloba a formação completa do indivíduo, considerando todos os aspectos da personalidade.
Tendo a concordar com cada um deles — e é nesse ponto que vamos mostrar o abismo que há entre a tecnologia da Inteligência Artificial e o ser humano, encerrando de vez o discurso de que a IA se tornará humana em pouco tempo.
Começando pelo aprender a conhecer: o método de treinamento das LLMs é baseado em aprendizado profundo, parte dele independente e parte assistido, mas a base para esse conhecimento não vai além da produção humana. A máquina, por si só, não tem iniciativa nem prazer no aprendizado; não possui a curiosidade necessária para isso. É uma máquina que depende do comando humano e de um clique num botão para executar seu processo de aprendizagem. Não estou aqui desmerecendo a tecnologia — pelo contrário, ela é impressionante, revolucionária e vai alterar a dinâmica dos acontecimentos mundiais a partir de agora. Mas não: ela não possui as múltiplas formas e a capacidade humana de evoluir e de aprender a conhecer a partir da curiosidade, das dores, das perdas, das angústias ou das alegrias, como nós temos.
Se formos ao segundo pilar citado pela Unesco, temos o aprender a fazer: aplicar o que se aprende, entender como executar, pensar em possibilidades. É aí que nossa espécie se sobressai. Uma coisa é entender algo; outra é executar. As LLMs executam tarefas para as quais foram treinadas, pensadas antecipadamente de acordo com padrões conhecidos de usabilidade. Isso está a anos-luz do imaginário humano — aquele que fez Leonardo da Vinci pensar em máquinas voadoras e Einstein olhar para o céu e imaginar uma teoria que seria comprovada décadas depois. Não consigo imaginar uma Inteligência Artificial sendo capaz de imaginar, de ir além dos limites do conhecimento que lhe foi dado pelos homens. Essa capacidade de imaginar e de fazer permanece inalcançável, até o momento, para qualquer IA.
Falando em aprender a conviver, o terceiro pilar: as Inteligências Artificiais são, por si só, máquinas e algoritmos. Elas não vivem em nossa sociedade, não precisam levantar de manhã para levar os filhos à escola e encontrar o lixo que o vizinho deixou na porta, não precisam se preocupar em ser educadas com um cliente inconveniente ou correr desesperadas ao perceberem que alguém as persegue. As regras de convivência humana são necessárias porque nos afetamos mutuamente em tudo que fazemos — desde a economia até o dia a dia mais simples. As LLMs são incapazes de conviver, de aprender a conviver ou sequer de entender o que isso significa. Elas podem responder com base em experiências de pessoas captadas durante seu treinamento, mas, por si mesmas, jamais precisarão enfrentar os obstáculos pessoais que formam um ser humano. Vivemos num mundo de diferenças infinitas.
O último pilar é o mais claro, o mais impressionante e o argumento definitivo para mostrar que, embora a IA seja uma tecnologia incrível, compará-la a nós, humanos, chega a ser um insulto. Aprender a ser: aqui estamos falando da personalidade, daquilo que nos torna únicos, que nos faz superar obstáculos — resultado de experiências individuais irreplicáveis. Nós, como espécie, temos até dificuldade em compreender o que somos, de onde viemos e para onde vamos. Isso é motivo de estudos eternos — científicos, religiosos e de crenças diversas — e tudo isso porque temos uma certeza: eu sou um ser humano, eu existo aqui. Não sabemos ao certo como essa percepção foi gerada, muito menos como replicá-la. É o conceito da alma. A IA é um algoritmo treinado para replicar nosso conhecimento, tudo o que sabemos — mas incapaz de entender, de verdade, quem ela é. Mesmo que responda “Sou uma IA”, sabemos que isso é resultado de aprendizado, e não de um sentimento profundo que, no íntimo, sem nenhum estímulo externo, nos faz chorar e dizer: sou humano, como é complicado viver, como é bom viver, como estou feliz em estar vivo e ter saúde. É isso que nos faz uma espécie superior, que controla o mundo. Se nós mesmos não sabemos de onde esse sentimento vem, como vamos treinar uma IA para tê-lo de verdade?
A Inteligência Artificial é mais uma das nossas invenções — um algoritmo e uma máquina excelente, que já está mudando e continuará mudando o mundo completamente. Mas imaginar que ela está no mesmo patamar que a máquina humana é ingenuidade ou desinformação. Somos complexos; aprendemos a cada dia e a cada hora vivida, acumulando conhecimento e experiências suficientes para nos tornarmos mais sábios. A IA precisa de dezenas de engenheiros inserindo dados e mostrando a ela o que fazer. Devemos colocar cada coisa em seu lugar.
O aprendizado de máquina é impressionante e emula o que somos, gerando ferramentas incríveis que vão substituir seres humanos em milhares de funções. Mas, enquanto isso ocorre, os seres humanos aprendem a conhecer o que está acontecendo, aprendem a fazer — adaptando-se e construindo soluções —, aprendem a conviver com essa nova realidade e, principalmente, continuam na jornada de entender quem são e para onde iremos no final de tudo isso.
Vamos nos adaptar a essa nova realidade, vamos nascer e morrer no caminho — e é isso que nos faz diferentes. As IAs são modelos que possuem versões, modificadas de acordo com a necessidade e com novas informações, não criadas ou geridas por elas mesmas, mas por toda uma sociedade humana que se move sozinha, imperfeita, porém da maneira mais complexa possível — de uma forma que uma IA jamais será.



