A IA não substitui pessoas, ela empodera aquelas que a dominam.
Estamos em um momento de mudança no cenário mundial, em todas as áreas, e não é errado afirmar que a inteligência artificial está na vanguarda das transformações nas relações de trabalho.
Pode parecer uma afirmação forte, carregada de paixão de alguém que mudou de vida após a explosão monumental dessa tecnologia em meados de 2022, mas não. Vou demonstrar alguns argumentos e fatos que validam esse pensamento.
Por muitos séculos, a liderança e a autoridade foram quase exclusividade de quem detinha conhecimento. Ter conhecimento significava poder. Com a internet e, agora, com a inteligência artificial, isso deixou de ser verdade. O conhecimento hoje é praticamente um commodity: abundante, quase gratuito e praticamente instantâneo. Nesse sentido, deter conhecimento e segurar as rédeas apenas com base nele tornou-se praticamente impossível, exceto em casos muito específicos.
Diante desse cenário, as lideranças mudaram a abordagem. Deixaram de focar exclusivamente no quociente de inteligência (QI) e passaram a investir no quociente emocional (QE). Gurus e escolas de negócios passaram a priorizar as chamadas soft skills. Habilidades relacionadas à comunicação, ao trabalho em equipe, à resolução de problemas, entre outras, tornaram-se o alicerce da construção da confiança, da lealdade e da cultura no mundo do trabalho. O conhecimento continua sendo importante, mas passou a ser o requisito mínimo. O diferencial tornou-se o quociente emocional.
Com o crescimento do uso da inteligência artificial, surgiram inúmeras ferramentas que tornam o QE mais fácil e acessível, facilitando para que até gestores que tinham dificuldades nessa área passem a ter sucesso, mesmo com algumas limitações. Entre os exemplos, há ferramentas que analisam comportamentos e sugerem feedbacks de acordo com o perfil e a personalidade de cada liderado, inteligências artificiais de coaching que ajudam líderes a se comunicarem melhor e a serem mais empáticos em e-mails, mensagens e ligações, além de sistemas que executam tarefas que antes exigiam comunicação intensa e trabalho em equipe, reduzindo tensões. Esses são apenas alguns exemplos que sustentam a ideia de que, embora ainda seja importante, o QE caminha para se tornar um requisito básico, e não mais um diferencial, já que a inteligência artificial pode auxiliar ou até mesmo imitar essas competências. Ou seja, não é mais sobre como se faz, nem sobre a emoção necessária para fazer, mas sim sobre o significado.
Saindo da era do “como” para o “porquê”
Vou focar este estudo no QS, o quociente de significado. Segundo estudo da McKinsey, colaboradores em ambientes de alto significado podem atingir níveis de produtividade até cinco vezes maiores em seus picos de desempenho. A inteligência artificial é capaz de suprir o “o que” e o “como”, mas não consegue dar significado ao trabalho. Estou falando de propósito.
Recentemente, em uma palestra que eu ministrava, perguntei a um rapaz da plateia, que trabalhava em uma empresa de embalagens, qual era o propósito dele dentro da organização. A resposta dele evidencia como muitas pessoas trabalham sem compreender o real significado do que fazem. Ele respondeu: “Produzo embalagem de papelão na máquina. Esse é o meu propósito.” Ele não poderia estar mais enganado. Produzir embalagem de papelão na máquina é o que ele faz e como ele faz, mas não o seu propósito.
Em seguida, perguntei que tipo de embalagem ele produzia. Ele respondeu que eram embalagens para remédios. Então perguntei: “Você conhece algum remédio que chegue à casa de um cliente sem embalagem?” A resposta atônita dele deixou claro que havia chegado sozinho à solução, no melhor estilo socrático. O significado do trabalho dele é garantir que as pessoas recebam tratamentos adequados, pois a embalagem é fundamental para que o medicamento chegue com segurança. Esse é o ponto central: significado está relacionado a compreender por que realizamos algo. É o propósito. E isso a inteligência artificial não entende nem entrega. Somente pessoas inspiradoras conseguem ter esse senso de propósito e transmiti-lo aos outros.
Em resumo, o significado não é uma nova moda, é a nova realidade das lideranças. Ou você domina esse entendimento, ou está fadado a ser liderado. Focar no significado não é apenas uma estratégia para fazer as pessoas se sentirem bem; é uma questão de desempenho e inovação.
Outro conceito que merece destaque é o QA, o quociente de adaptabilidade. Com mudanças acontecendo o tempo todo, a capacidade de adaptação tornou-se uma obrigação para o profissional desse novo mundo. Não existe mais uma forma fixa de executar algo. É preciso analisar continuamente novas tendências. Realizo muitos workshops sobre ferramentas de inteligência artificial e, recentemente, conduzi um circuito no estado do Paraná em parceria com a FIEP (Federação das Indústrias do Estado do Paraná). Foram cinco workshops ao longo do mês de novembro. E sabe o que é mais assustador? A cada workshop, as ferramentas ensinadas já haviam passado por mudanças. Ou seja, aqueles que participaram do primeiro encontro e não continuaram estudando ficaram obsoletos em menos de um mês. De um lado, isso é assustador e cansativo e certamente causará muitos impactos negativos, assunto que abordarei em outro momento. Por outro lado, essa é a dura realidade do novo mundo impulsionado pela inteligência artificial.
O profissional que vai prosperar não é o mais inteligente, nem o mais equilibrado emocionalmente. As máquinas estão adquirindo conhecimento e empatia em ritmo acelerado. O profissional que vai prosperar é aquele que compreende e dá significado ao trabalho. A inteligência artificial executa tarefas, mas não entrega propósito às pessoas.
Este texto serve para ajudar você a perceber o panorama do mundo do trabalho no cenário pós-inteligência artificial. Não há retorno. As relações estão mudando em um ritmo acelerado. E isso sem sequer abordar questões mais amplas, como disputas políticas, avanços em hardware, software ou contextos militares. Estou apenas demonstrando que, dentro do ambiente de trabalho, quem não compreende o propósito de estar ali ficará para trás. E você, qual é o propósito daquilo em que está trabalhando hoje?



